Na 2ª feira à noite 22/09/25, as portas do Tribunal Celeste (que se abriram há 1 mês) vão se fechar e p
nosso Criado vais estabelecer a sentença que é expressa numa reza: Quem viverá, e que morrera? Quem pelo fogo, quem pela água (não deixem de ouvir a linda canção que Leonard Cohen fez sobre este assunto)
Imediatamente se inicia um Tribunal de Apelação, onde podemos tentar reverter esta sentença.
Mais uma vez, chego às Grandes Festas com a alma dividida. Rezo para que cesse a morte de civis e militares — palestinos e israelenses —, para que os reféns voltem para casa, para que o Hamas deixe de existir como força militar, e para que a política recupere a primazia sobre a vingança. Não vejo o que ocorre como “genocídio”; vejo uma guerra terrível, com responsabilidades morais e estratégicas que precisam ser enfrentadas sem ambiguidade, sempre com a proteção de inocentes como norte.
Este ano volto a dois poemas que me perseguem:
- Em “A cidade do massacre”, de Bialik (escrito a respeito do Pogrom de Kishnev, ocorrido em 1903, que motivou a vinda da minha família materna para o Brasil, e é uma das cidades atacadas pela Rússia no atual conflito) nos mostra como o horror prospera quando a indiferença consente. Leio essas linhas como um mandamento negativo para o nosso tempo: não seremos uma cidade do massacre, nem de slogans, nem de olhos fechados — nem quando a dor é a do “outro”, nem quando é a nossa.
- Em “Babi Yar”, de 1961, Ievguêni Ievtuchenko, escreve sobre o Massacre na cidade homônima, onde cerca de 100.00 judeus da região de Kiev (entre 1941 e 1943) foram fuzilados nesta colina, por nazistas e seus colaboradores Ucranianos (em parte por sito não consigo me solidarizar com a guerra atual, mas também não apoio os Russos), onde diferente de Auschwitz e outros campos, nada sobrou (os Nazistas na as retirada tentaram eliminar qualquer vestígio do que ocorrerá) para lembrar dos desaparecidos. Assim Ievtuchenko transforma um vazio de monumento numa presença de memória: ali, onde não havia pedra, ergue‑se a recusa de aceitar que o antissemitismo — e qualquer ódio — seja normal. Leio os dois como um só apelo: lembrar é agir; lembrar é não consentir.
Em anos anteriores, escrevi que o perdão, em nosso calendário, é um exercício comunitário — pedimos e concedemos em voz alta, porque o que nos salva raramente é obra de um indivíduo isolado. Continuo acreditando nisso.
Em Rosh Hashaná, a cada toque do shofar (aprendi com a mina avó paterna que é durante o toque do Shofar que D’us está mais “aberto as nossas súplicas”, mas não devemos pedir nada pessoal devemos pedis coisas para toda a humanidade, com saúde, paz e prosperidade. Que as discórdias sejam mantidas de forma civilizada, que tenhamos mais tolerância um com os outros, peço que a nossa comunidade seja capaz de segurar a tensão entre justiça e compaixão, sem anestesiar‑se.
Sou fissurado em R. Buckminster Fuller (1895-1883, criador do Domo geodésico. Ele desenvolveu um conceito de que a terra é uma espaçonave indo para um destino longínquo e que temos recursos limitados. Se soubermos usar vamos chegar ao nosso destino. O problema é que não temos um manual de instrução.
Em 1969 ele publicou: “Operating Manual for Spaceship Earth”
Também já escrevi que há três verbos que nos colocam diante do Eterno e dos outros: teshuvá (retorno), tefilá (prece) e tzedaká (justiça/solidariedade). Não espero milagres; espero decisões. Retornar é revisar convicções, inclusive as nossas. Rezar é julgar‑se por dentro, com honestidade. E fazer justiça é agir — de forma concreta — para reduzir o sofrimento de quem está ao alcance das nossas mãos.
Trago de volta, também, a lembrança do verso que me acompanha há anos: “cada morte me diminui” — não porque relativizo culpas, mas porque me recuso a desumanizar quem sofre. Essa teimosia pela vida não me torna neutro. Quero o desarmamento e a derrota do Hamas, a libertação dos reféns, a proteção rigorosa de civis em Gaza, e lideranças corajosas que retomem a política depois das armas. Se Bialik nos adverte contra a apatia, Ievtuchenko nos lembra que memória sem ação vira ritual vazio.
O calendário nos dá um roteiro. Unetanê Tokef nos sussurra que “em Rosh Hashaná se escreve e em Yom Kipur se sela”, mas também que teshuvá, tefilá e tzedaká “atenuam a severidade do decreto”. O meu “decreto” pessoal deste ano é simples de enunciar e difícil de cumprir:
- Menos cinismo, mais responsabilidade — inclusive na linguagem que uso ao falar do conflito.
- Mais presença concreta — doar, acolher, ligar, visitar, não terceirizar a compaixão.
- Mais escuta e menos certezas — sobretudo quando as minhas certezas me fazem “vencer” uma discussão e perder um amigo.
Peço perdão a quem feri com palavras impacientes ou omissões covardes; ofereço perdão a quem me feriu. Que a lembrança dos massacres de ontem nos ajude a impedir os de hoje, e que a nossa memória não seja um monumento à parte — mas um compromisso diário com a vida.
Shaná Tová uMetuká. Gmar Chatimá Tová.
BABI YAR
Por Yevgeni Yevtushenko
Traduzido por Benjamin Okopnik, 10/96Não há monumento algum sobre Babi Yar.
Apenas um penhasco íngreme, como a mais rústica lápide.
Receio.
Hoje, sou tão velho
quanto toda a raça judaica.Eu me vejo como um antigo israelita.
Eu vagueio pelas estradas do antigo Egito
E aqui, na cruz, eu pereço, torturado
E mesmo agora, eu carrego as marcas dos pregos.Parece-me que Dreyfus sou eu mesmo. *1*
Os filisteus me traíram – e agora julguem.
Estou numa gaiola. Cercado e preso,
sou perseguido, cuspido, caluniado, e
as delicadas bonecas com seus babados de Bruxelas
guincham, enquanto enfiam guarda-chuvas em meu rosto.Eu me vejo como um garoto em Belostok *2*
Sangue derrama e corre pelo chão,
Os chefes de bares e pubs se enfurecem sem impedimentos
E cheiram a vodca e cebola, meio a meio.Sou jogado para trás por uma bota, não tenho mais forças,
Em vão imploro à turba do pogrom,
Às vaias de “Matem os judeus e salvem a nossa Rússia!”
Minha mãe está sendo espancada por um escrivão.Ó Rússia, do meu coração, eu sei que você
é internacional, por natureza interior.
Mas muitas vezes aqueles cujas mãos estão imersas em imundície
abusam do seu nome mais puro, em nome do ódio.Conheço a bondade da minha terra natal.
Que vil, que sem o menor tremor
os antissemitas se tenham proclamado
a “União do Povo Russo!”Parece-me que sou Anna Frank,
Transparente, como o galho mais fino de abril,
E estou apaixonada, e não preciso de frases,
Mas apenas que nos olhemos nos olhos.
Quão pouco se pode ver, ou mesmo sentir!
Folhas são proibidas, assim como o céu,
Mas muito ainda é permitido – muito suavemente,
Em quartos escuros, para nos abraçarmos.-“Eles vêm!”
-“Não, não tema – esses são os sons
da própria primavera. Ela está chegando.
Depressa, seus lábios!”-“Eles arrombaram a porta!”
-“Não, o gelo do rio está quebrando…”
A grama selvagem farfalha sobre Babi Yar,
As árvores olham com severidade, como se estivessem julgando.
Aqui, silenciosamente, tudo grita, e, com o chapéu na mão,
sinto meu cabelo mudando de tom para grisalho.E eu mesmo, como um longo grito silencioso
Acima dos milhares de milhares enterrados,
Sou cada velho executado aqui,
Assim como sou cada criança assassinada aqui.Nenhuma fibra do meu corpo esquecerá isso.
Que a “Internacional” troveje e ressoe *3*
Quando, para sempre, for enterrado e esquecido
O último dos antissemitas nesta terra.Não há sangue judeu que seja meu,
Mas, odiado com uma paixão corrosiva,
Sou como um judeu pelos antissemitas.
E é por isso que me chamo de russo!
A Cidade do Massacre
Chaim Nachman Bialik, 1904 – tradução livre)
Desce à cidade do massacre.
Percorre seus becos, fita as sombras.
Com as mãos, apalpa os muros frios,
com os dedos, sente as rachaduras, o pó, o sangue seco.
Anda como um enlutado na madrugada,
deixa que o silêncio te ensine o que as bocas calaram.Entra nas casas partidas, nos quartos virados,
na mesa que não terá mais pão.
Olha o berço quebrado, a cadeira sem dono,
a lamparina que arrefeceu de medo.Aí, no chão, dorme uma noite inteira
e sonha o que ali se sonhou —
não deita lágrimas ainda;
aprende primeiro os nomes, os cheiros, os gritos que ficaram no ar.Desce mais: às caves, às fendas, ao porão do mundo,
onde o hálito da besta se estende,
onde a honra foi rasgada como pano,
onde o riso dos perversos cortou mais fundo que faca.Não perguntes “onde estava Deus?” —
pergunta onde estavas tu,
quando o vento da vergonha varreu as ruas,
quando os homens de Israel tremeram atrás de tábuas,
quando se ouviram passos e eles buscaram
o abrigo estreito de uma cama.Oh, cidade! teus portões viram tudo
e nada disseram;
tuas janelas se fecharam com pressa,
teus vizinhos contaram moedas,
e os cães aprenderam a língua do riso.E tu, irmão, não chores ainda.
Guarda o pranto para a última palavra.
Agora vê:
o fio partido da vida,
o susto que fez cinza o cabelo,
a oração entalada no dente.Não te iludas com consolo barato, não te perfumes com piedade.
A misericórdia, aqui, é faca sem cabo.
Se tiveres coração, que ele seja duro;
se tiveres braços, que saibam erguer-se.Sai, então, pela mesma porta,
mas não como entraste.
Leva contigo a vergonha que viste,
a chama que exige resposta,
o nome de cada casa quebrada —
e que o teu silêncio não consinta de novo.E se ainda te restar vontade de cantar,
que o teu canto não adormeça ninguém.
Que desperte os que dormem,
que incomode os que riem,
que devolva aos mortos a honra
e aos vivos a coragem de ficar de pé.E quando enfim chorares —
chora não para esquecer,
mas para lembrar;
não para parar o mundo,
mas para pô-lo de pé.Então, e só então,
deixa cair tua lágrima sobre a pedra,
como selo e testemunho:
não seremos mais a cidade do massacre.