A morte de qualquer pessoa me diminui, porque sou parte da humanidade.” John Donne, 1624

Estamos, em 7 de outubro de 2026, no terceiro aniversário do massacre perpetrado pelo Hamas.

Entristecem-me profundamente a quantidade de mortos e o sofrimento de tantas pessoas.

Não pretendo justificar a mortandade e o sofrimento que ocorreu (minha Neshamá [alma] sofre e chora constantemente).

Quero apenas tentar explicar como funciona a alma — ou, talvez melhor, a memória coletiva — de uma parcela significativa dos judeus.

O “D’us portátil”

O judaísmo introduziu no mundo antigo algo extraordinário: o que eu chamaria de um “D’us portátil”.

Na Antiguidade, as religiões eram em grande parte territoriais. Em Roma, cultuavam-se os deuses de Roma; na Grécia, os deuses locais.

Os judeus, entretanto, iam a Roma, Grécia ou Babilônia e levavam consigo o seu D’us. O cultuavam em terra estrangeira. Afirmando que o seu D’us era melhor do que os Deuses locais. Para piorar, na forma de prática do judaísmo antigo, não se aceitavam conversos, e o texto ficava assim: “O meu D’us é melhor que o seu e você não pode entrar no Club”. Esta é uma fórmula para causar confusões

Posteriormente, cristianismo e islamismo também proclamariam uma verdade assemelhada, mas estes estimulam a conversão. Assim, você pode entrar no club.

Ao longo da História, a convicção humana de possuir a “verdadeira fé” produziu guerras, perseguições, conversões forçadas e assassinatos. Os cruzados proclamavam: “Deus vult” — “Deus o quer”.

Às vezes penso que mais pessoas morreram em nome de D’us do que foram salvas em Seu nome.

Pertencimento e memória

Há também a questão do pertencimento.

Muitas pessoas que conheço, hoje mantêm vínculos predominantemente sociais — amigos, clubes, colegas, condomínios — e não necessariamente carregam uma memória afetiva profunda do que aconteceu com seus antepassados.

Para muitos judeus, Armênios, Drusos, Coptas, Maronitas e outros povos que preservaram uma forte identidade histórica, há uma percepção diferente.

Os judeus transmitem de geração em geração a memória de perseguições, expulsões, pogroms, conversões forçadas e massacres.

Em hebraico se diz: L’Dor Vador — de geração em geração.

Essa memória está presente na própria religião.

No Yizkor, quatro vezes por ano, lembramos nossos familiares mortos, as vítimas da Shoah, os soldados mortos na defesa de Israel e, hoje, também as vítimas de 7 de outubro de 2023. Nesta última, confesso, costumo chorar copiosamente. Em Pessach, que celebra a libertação da escravidão no Egito, repetimos

“Em cada geração, cada pessoa deve considerar-se como se ela própria tivesse saído do Egito.”

Não somos ensinados apenas a lembrar o que aconteceu aos nossos antepassados. Somos ensinados a sentir como se tivesse acontecido conosco. E terminamos o Seder dizendo

“L’Shaná Haba’á B’Yerushalayim” — “No próximo ano, em Jerusalém.”

Durante séculos de diáspora, gerações repetiram essas palavras.

No Arco de Tito, em Roma, o próprio conquistador deixou gravada em pedra a destruição de Jerusalém em 70 EC: soldados romanos carregando a Menorá saqueada do Templo.

Uma memória de quase dois mil anos

Historiadores e demógrafos como Sergio DellaPergola, Oded Lipschits, Peter Schäfer e Israel Finkelstein, além de fontes antigas como Flávio Josefo e Cássio Dio, ajudam-nos a dimensionar essas tragédias, embora os números da Antiguidade sejam necessariamente imprecisos.

Um exemplo é a Revolta de Bar Kokhba (132–135/136 EC).

A repressão do imperador Adriano foi devastadora. Cássio Dio relatou 580.000 mortos em combates e incursões, além dos que morreram de fome e doenças. A cifra é discutida, mas estudos arqueológicos modernos confirmam uma devastação extraordinária da população judaica da Judeia, que provavelmente eliminou 50% da população judaica.

Os Norte Americanos celebram a chegada do Navio Mayflower, na Nova Inglaterra, em 1620, como início da “colonização” da América. Pergunta: Alguém sabe qual o nome do Capitão desta embarcação, do Capelão, e outros? Como foi a jornada?

Há 3.500 anos atras, um Capitão nos tirou do Egito.

Sabemos seu nome: Moisés, do líder religioso: Aaron; do Líder Militar: Josué e tantos outros

Sabemos, como foi a travessia, como sobrevivemos

Assim são os judeus, mantemos nossas memórias, tanto as coisas boas, como as ruins e com isto crescemos espiritualmente, culturalmente e socialmente.

Quando a ameaça a um se torna uma ameaça a todos

Talvez isso ajude a explicar algo difícil de compreender para quem não compartilha dessa memória.

Quando um judeu é ameaçado em qualquer parte do mundo, muitos de nós sentimos como se nós próprios estivéssemos sendo ameaçados. Forma-se espontaneamente uma espécie de amálgama universal.

Dois exemplos:

Entebbe, 1976. Quando um avião foi sequestrado e levado para Uganda, dois dos sequestradores eram alemães. A separação dos reféns israelenses e alemães apontando metralhadoras em judeus é algo inaceitável. Isto evocou imediatamente, para muitos judeus, a memória da Shoah (Holocausto)

Passado e presente se confundem

A alma judaica respondeu: NUNCA MAIS.

Quero deixar bem claro que os judeus não têm uma cultura de raiva e vingança. Não nutrimos ódios pelos nossos algozes. Pelo contrário, celebramos a vida, a alegria e a cultura. Sobrevivemos 3.500 anos, apesar de todas a perseguições por causa destes atributos. Os judeus representam menos do que 0,2% da humanidade, mas 22% dos laureados com o Prêmio Nobel são judeus.

O massacre de 7 de outubro de 2023 abriu uma enorme ferida, que ainda não estava totalmente cicatrizada dos episódios do passado.

Para muitos judeus, as imagens de famílias assassinadas, comunidades atacadas e pessoas sequestradas não pertenciam apenas ao presente. Despertaram memórias muito antigas.

É como se, nesses momentos, Bar Kokhba, as Cruzadas, as expulsões, os Pogroms, a Shoah e o 7 de outubro deixassem de pertencer a séculos diferentes e ocupassem o mesmo espaço emocional.

Talvez isso seja L’Dor Vador.

Mas há um ponto essencial

Compreender essa memória não significa justificar o sofrimento imposto a outros povos.

Significa reconhecer que, para compreender determinadas reações humanas, precisamos conhecer não apenas os acontecimentos do presente, mas também as memórias que cada povo carrega consigo.

E por isso volto a John Donne:

“A morte de qualquer pessoa me diminui, porque sou parte da humanidade.”

A memória do sofrimento judaico pode, em parte, explicar medos e reações.

Não deveria nos tornar indiferentes ao sofrimento do outro.

Sou um judeu da diáspora. Não sou cidadão Israelense, e, portanto, não “vivo na carne” o que ocorreu no massacre de 3 anos atras. Tenho minha opinião pessoal, mas a decisão da reação é de quem está no “front”

Talvez a maior lição de carregar uma memória tão longa seja justamente esta:

Se sabemos o que significa sofrer, deveríamos ser capazes de reconhecer o sofrimento, independentemente de quem esteja sofrendo.

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