A ERA DA INTOLERÂNCIA

Algumas vezes por ano, como neste momento, eu me proponho a escrever um texto que tenta trazer alguma reflexão a quem estiver com a disposição de ler, lembrando que eu sou prolixo, e por ser judeu (mais cultural do que religioso) tenho um viés ao escrever

Tento buscar inspiração nas coisas que li durante o ano, ou eventos que tenham acontecido. Algumas vezes esta tarefa é mais simples, mas neste ano foi mais difícil, pois estamos saturados de notícias sobre Guerras, Trump, Escândalos em Brasília, e tantas outras coisas.

Como exemplo desta saturação, há um relato sobre uma conversa, em ~1946 (antes da Criação do Estado de Israel e do Concilio Vaticano II), numa Festa de Gala, entre a Sra. Claire Luce, conservadora, dona de um império jornalístico, baseado na Revista Time e o Sr. Nahum Goldmann, Presidente do Conselho Mundial Judaico:

“Mr. Goldmann, don’t you think the Jews have already used too much of the Holocaust for their case?”
“Mrs. Luce, that is how I feel about the Crucifixion of Jesus.”

O tema deste ano é algo que venho guardando com carinho, para ser usado num momento apropriado, e esta é a hora.

Todos sabem do meu interesse por história, por diletantismo, e, portanto, o que escrevo é certamente cheio de falhas e incorreções. “Mea Culpa, Mea Culpa, Mea Maxima Culpa”.

Um dos historiadores que eu mais admiro é o falecido Eric Hobsbawm, Britânico, nascido em Alexandria, de tendencia marxista, que entre outras obras ele escreveu uma série de Livros sobre as “Eras” (A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e a Era das Incertezas ou dos Extremos). Hobsbawm quis mostrar que a modernidade nasceu da revolução, cresceu com o capital, expandiu-se pelo império e terminou mergulhada na incerteza, sem um projeto coletivo claro para o futuro.

Sem nenhuma pretensão, creio que Hobsbawm estivesse vivo hoje (faleceu em 2012) ele escreveria um livro intitulado: A ERA DA INTOLERÂNCIA

A intolerância não é uma invenção da Modernidade, ela sempre existiu (apenas como exemplos: As guerras na Europa entre o Catolicismo e o Protestantismo, por quem defendia a Verdadeira Fé”; o Nazifascismo e tantas outras). No entanto, nas últimas décadas ela ganhou escala, velocidade e legitimidade. Ela deixou de ser apenas um surto: tornou-se um método. E, pior, um método que se vende como virtude — “coragem”, “identidade”, “ordem”, “verdade” — enquanto a vida comum, nessa mistura de desacordo e convivência, vai sendo triturada.

A intolerância contemporânea floresce no terreno mais fértil dos tempos modernos:

  • A sensação de que tudo está fora do lugar.
  • Quando o mundo parece instável, a política vira disputa de pertencimento.
  • Quando o futuro parece caro, a solidariedade vira luxo
  • Quando a realidade vira guerra de versões, a empatia vira suspeita.
  • E assim, aos poucos, discordar passa a ser pouco: é preciso eliminar o outro.

Durante a Guerra Fria, o mundo viveu uma intolerância organizada: dois blocos ideológicos rigidamente definidos, porém previsíveis. Nesse contexto emergiu o Movimento dos Países Não Alinhados, tentativa ambiciosa de criar um terceiro espaço político. Países recém descolonizados buscavam preservar soberania, evitar a captura por superpotências e afirmar uma identidade própria no sistema internacional.

Sua linguagem era moral, seu vocabulário era o da autodeterminação, e sua esperança residia numa ordem internacional menos violenta. Ainda que limitado e por vezes contraditório, o movimento expressava a crença de que a neutralidade era possível.

Essa crença não sobreviveu ao colapso da bipolaridade. Com o fim da Guerra Fria, desapareceu não apenas a URSS, mas também a ilusão de um espaço neutro entre impérios. O mundo não se tornou mais tolerante; tornou-se mais caótico.

Deste caos várias consequências ocorrem, sendo uma delas o confronto entre os EUA e o chamado “Sul Global” que se diferencia do Movimento dos Países Não Alinhados:

  1. O Sul Global não tem ideologias, tem pragmatismo
  2. Não tem alinhamentos, é multipolar
  3. Não busca Neutralidade, tem alinhamentos flexíveis
  4. Seu foco não é político, e sim na economia, na tecnologia e na energia
  5. Não tem uma forte liderança (como forem: Tito, Nehru, Nasser, Sukarno)

A fratura crescente entre Washington e o “Sul Global” — Cuja postura tem sido descrita como “active non-alignment”: nem se ajoelhar diante de Washington, nem se submeter a Beijing.

Umberto Eco, em 2015, fez uma declaração quando recebeu mais um título de “Doutor Honoris Causa”:

“a internet deu voz a uma legião de imbecis”

Em uma entrevista para as famosas “Páginas Amarelas” da revista Veja, ele explicou:

“No caso da internet, não penso que ela possa fazer a crítica da vida, porque o trabalho crítico significa filtrar, distinguir as coisas, ao passo que a internet é como o personagem do [escritor argentino Jorge Luís] Borges, Funes, memorioso: ela lembra de tudo, não esquece nada. Seria preciso exercer essa crítica — filtrar, distinguir — sobre a própria internet.

Eu sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar e filtrar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso.

Foi nesse sentido que eu defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornarem vítimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espaço para a análise das informações que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que é sério, o que é um hoax, por exemplo. Será que os jornais estão prontos para isso? Seria preciso ter gente especializada em diversas áreas.

Obviamente, sendo você um conhecedor de Aristóteles, você consegue reconhecer se um site é bom ou não, mas você não poderá fazer o mesmo com um site sobre teoria das cordas. A crítica da internet exige um novo tipo de expertise, mesmo para os jornais. E isso é muito importante para os jovens, pois eles não têm, aos 15, 16 anos, os conhecimentos necessários para filtrar as informações a que têm acesso na rede. Ora, assim como quem lê diversos jornais acaba aprendendo a distinguir abordagens distintas da parte dos jornais, os jovens hoje precisam aprender a buscar essa variedade de abordagens nos sites que frequentam.”

A Era da Intolerância também aparece na Rua e no modo como a Rua é narrada:

As mobilizações em torno de Gaza reacenderam um fenômeno duplo e perigoso:

De um lado, o impulso legítimo de protestar, exigir cessar-fogo, denunciar abusos e defender vidas civis.

Do outro, a criação de novas “Verdades” como por exemplo:

  • Jesus ser palestino, vejam o Billboard no Times Square desta semana (um comentário
    pessoal. Se isto fosse verdade o Cristianismo deixaria de existir, pois a premissa da vinda do
    Messias é que ele seja judeu, da Tribo de Judá e descendente do Rei David. Se ele for Palestino, as
    Profecias de Isaias não se cumpriram e, portanto, ele não pode ser o Messias [para que não sabe
    Cristo significa em Grego a Messias]. E aí vai se embora todo o alicerce da civilização Ocidental).
  • O crescimento de incidentes antissemitas, com vandalismo, ameaças e assédio, inclusive em ambientes universitários e instituições públicas.
  • A negação de que os judeus viveram nesta região desde vários milênios atras.

Gosto de sugerir, que quando estiverem em Roma, visitem o Arco de Tito (construído em 82 DC).

Na face interna dele há um alto relevo, que retrata a destruição de Jerusalém e o saque do Templo Sagrado.

Alguém conhece outro povo que tem gravado em pedra um documento de ~2.000, que atesta sua ligação com sua Terra Ancestral? Tem um detalhe importante, isto feito por quem conquistou Israel. O Islamismo surge apenas no século VII

Leiam um artigo que saiu ontem (27/12/2025) na Revista The Atlantic: No Canada algumas cortes estão obrigando a devolução aos Povos Originais de terras tomadas durante a colonização deste país. Pergunto:

  • Quanto tempo define que os Povos originais não têm mais direito as terras ancestrais?
  • 500 anos, como é o caso da maior parte do “Novo Mundo”?
  • 800 anos que foi o período que os Mouros dominaram a Península Ibérica?

Lembrem-se que estes movimentos são como bolas de neve, e como um raio num céu límpido, esta questão deve chegar ao Brasil.

Há aqui uma armadilha que este tempo adora: substituir pensamento por rótulo. Uma propaganda, como o ocorrido recentemente com as Sandálias Havaianas causa cancelamento e protestos, do ódio: culpa coletiva, conspiração, caricatura, intimidação. Isso não é ativismo; é intolerância.

O escândalo seletivo: algumas guerras cabem no feed, outras não

Talvez o traço mais cruel do nosso tempo seja a hierarquia de indignações. Há conflitos que mobilizam multidões e governos; outros que permanecem como ruído de fundo, mesmo quando destroem países inteiros.

  • O Sudão é o exemplo mais gritante: uma crise descrita por grandes organizações como a maior emergência humanitária do mundo, com violência massiva, deslocamento e fome — e ainda assim frequentemente tratada como “a guerra esquecida”. Reuters+2AP News+2
  • O Sahel, com a combinação explosiva de conflito, colapso institucional e choque climático, também segue como um front “distante” para quem não precisa viver nele.
  • E outras tragédias africanas — como a violência insurgente em partes de Moçambique — reaparecem em manchetes como relâmpagos, sem tempo de gerar memória política duradoura. 
  • A mesma amnésia moral recai sobre Myanmar e o povo Rohingya: anos depois das grandes expulsões e do êxodo, a crise continua, os deslocamentos persistem, e a assistência vive em sobressaltos de financiamento e atenção internacional
  • Na China, a repressão de minorias muçulmanas e outras comunidades (como os uigures, além de tibetanos, cristãos e dissidentes) aparece de modo recorrente em relatórios e alertas internacionais

O que une essas tragédias? Não é apenas a violência. É o fato de que, na Era da Intolerância, a empatia é frequentemente administrada como um orçamento: gasta-se muito num lugar, economiza-se noutro. E, quando a compaixão vira seletiva, ela deixa de ser compaixão: vira identidade.

Por que a intolerância se tornou tão “eficiente”?

Porque ela se alimenta de três motores poderosos:

  • A economia da atenção, que recompensa o extremo, o insulto, o choque — e pune quem não adere a sua forma de pensar e agir.
  • A insegurança material, que transforma frustração em bode expiatório.
  • A geopolítica do ressentimento, em que cada crise é lida como prova de que o outro lado não merece existir — apenas perder.

Nesse ambiente, cresce a tentação de confundir política com purificação moral. E quando a política vira purificação, ela não busca convivência: busca exclusão ou extermínio.

Pessoalmente creio que existam outras dimensões evolvidas, cuja importância não sei aquilatar a importância, como:

  1. O movimento estudantil de maio de 1968, que deflagrou o lema: É proibido proibir.
  2. O declínio da importância das religiões ocidentais, em especial o Cristianismo e o Judaísmo:
    • Estas regiões organizadas até um passado recente davam “certezas”, uma bussola moral (eventualmente seja uma das razões do crescimento de religiões Neopentecostais)
    • Pompeu Magno (~106 AC – 48 AC) disse “Navigare necesse, vivere non necesse” que foi adaptada por Fernando Pessoa com o famoso “Navegar é preciso, viver não é preciso” Este “Preciso” tem um duplo sentido, tanto como Necessidade como exatidão. Assim neste mundo atual viver não tem exatidão, em parte a falta das regras religiosas, aumentaram as incertezas
    • Nos EUA:
      • É esperado o fechamento de 15.000 (Isto mesmo quinze mil) igrejas só em 2025
      • 60% da população raramente vai a algum serviço religioso
  3. O silencio da maioria, lembrem-se da frase de: pastor luterano alemão Martin Niemöller (1892–1984)
    • Primeiro perseguiram os socialistas; caleime, não era um deles. Depois, os sindicalistas; caleime dê novo. Em seguida, os judeus; continuei calado. Por fim, vieram atrás de mim — e já não havia ninguém para falar por mim.
  4. O aumento da desigualdade econômica dentro de cada país. Os ricos ficando mais rico e os pobres mais pobres
  5. A questão dos imigrantes, apenas para ter uma ideia:
    • Brasil: 0,4% da população é composta de refugiados
    • Libano (dependendo da fonte): 14% até 30%
  6. A Falta de pertencimento: Tenho um amigo de família tradicional brasileira, católica, que certa feita fez um comentário dizendo:
    • Tenho inveja de vocês judeus, pois vocês pertencem a um grupo, que mesmo sendo pequeno, carrega traços que os une, como: tradições, valores culturais, religiosos.
    • Eu sou de uma maioria, que não tem nada que nos una

 Talvez a resposta esteja em pequenas lealdades que parecem banais e, justamente por isso, são revolucionárias:

  • Lealdade aos fatos, mesmo quando não favorecem “o nosso lado”.
    • Eu leio vários jornais todos os dias, de diversas orientações políticas e religiosas, incluindo de países árabes (uso o Google Tradutor)
  • Lealdade à distinção entre criticar um governo e odiar um povo.
  • Lealdade à indignação coerente: se a vida civil importa aqui, importa lá também — em Gaza, no Sudão, no Sahel, em Myanmar, em Xinjiang.
  • Lealdade à ideia de que nenhuma causa se fortalece ao aceitar o racismo como atalho.

A Era da Intolerância é, em parte, a história de como desaprendemos a conviver. Mas a história — aquela que os grandes panoramas tentam captar — também é feita do que resiste: instituições imperfeitas, comunidades teimosas, gente comum que insiste em não odiar por atacado.

Como podemos ajudar a diminuir está “Bomba Atômica”. O psiquiatra Baiano, Jacob Levy Moreno (muito importante no desenvolvimento do Psicodrama) escreveu um lindo poema depois musicado, que dá uma pista de como devemos nos comportar

Neste fim de ano, o desejo não é que o mundo fique “menos complexo”. Ele não ficará. O desejo é outro: que, no meio da polarização, a gente recupere ao menos uma ambição civilizatória mínima — não transformar a dor em licença para desumanizar.

O que aconteceu no ano de 2025 no meu núcleo familiar:

  • Em termos de saúde, passamos por uma situação muito delicada, mas graças a competência dos médicos, tudo correu bem. Há um Bardo, nascido em Stratford-Upon-Avon, que escreveu: “All’s Weell, That End’s Well”
  • Laila (cujo nome em hebraico é Malka, que significa Rainha), se desenvolve muito bem, muito curiosa com o mundo que a cerca. Frequenta a pré-escola, onde está bem adaptada, mas está na hora dela ter um irmão (ou irmã). Para mim que tive um irmão e dois filhos tem sido uma salutar vivência ter uma menina na turma.
  • Vicky e Gabriel
    • Tem sido pais muito atentos e carinhosos, tem pouca ajuda, portanto alocam um bom tempo para a Laila
    • Vicky voltou a trabalhar e isto trás muita alegria a ela (e a nós)
    • Gabriel está feliz e bem adaptado ao seu trabalho
    • Têm um carro novo, muito legal, com mais segurança
  • Ariel:
    • Ele é mais retraído, mas parece bem feliz
    • A produtora (Moonheist) da qual ele é sócio vai bem
    • Alguns amigos do ramo da publicidade comentam sobre o trabalho dele.
    • Comprou um apartamento novo, em construção que deve ficar pronto em 2027 (nos deixa feliz que ele vai sair do Baixo Augusta)
  • Luci e eu
    • Renovamos nossos votos de casamento
    • Fizemos viagens maravilhosas para Galápagos e para a Mongólia, e temos várias viagens agendadas para 2026. Eu tenho um lema que diz:
      • O que me limita conhecer o mundo são duas coisas: Dinheiro e Joelhos:
      • Quando eu era jovem eu tinha joelhos, mas não tinha dinheiro
      • Agora tenho algum dinheiro, mas os joelhos começam a falhar
  • Há cerca de 2 anos começamos a construção de um chalé na nossa propriedade, que ficou muito bonito (na copa das arvores). Esta semana tinha um Tucano em frente de casa. Há um mês Saguis. Ontem cozinhamos um delicioso Schawarma de Frango

Assim, concluo este relato, que espero que tenha alguma coerência, que tenha sido agradável e se não o foi, me avisem, para eu melhorar

Desejo a todos um excelente 2026, com muita saúde, alegrias e realizações e que a tolerância entre as pessoas ressurja

Estes são desejos de Laila, Vicky, Gabriel, Ariel, Luci e jairo

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