O MOVIMENTO BUND

Pessoalmente não conheço nenhum judeu Sefaradita que apoie Partidos de Esquerda, mas conheço e vejo de uma quantidade bem expressiva de Judeus Azhkenazi, cuja visão ideológica é de Esquerda, em diferentes matizes, incluindo Antissionista (para quem não é judeu, Sion é um dos nomes de Jerusalém e há cerca de 2.000, desde a expulsão pelos Romanos, dizemos e cantamos: O Ano que vem em Jerusalém).

É preciso entender as diferenças da experiencia de vida destas duas vertentes do judaísmo.

Os Sefaraditas:

Se estabeleceram no Oriente Médio há milênios (uma das teorias é que são originários do Exilio da Babilônia ocorrido em 586 AEC, quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o Templo de Salomão), cerca de 1.100 anos antes do surgimento do Islã

Estes judeus foram governados por distintos impérios: Persa (Ciro); Grego (Alexandre). Persas (desta vez os Partas, que permitiram grande autonomia aos judeus), seguidos dos Sassânidas e finalmente o Islã. De alguma forma aprenderam a sobreviver e conviver com diversos tipos de regimes.

Sua relação com estes governantes, em sua maior parte era cordial, sem grandes perseguições, mesmo quando o Islã passou a governá-los. Com raras exceções, não houve conversão forçada. Juridicamente eram “dhimmis” (comunidade não muçulmana, protegida pelo Estado Islâmico). Tinha de pagar um imposto adicional, a Jizya.

Os Azhkenazis:

Ciro, o Grande da Pérsia, conquistou a Babilônia, e em 538 AEC e permitiu o regresso dos judeus a Terra de Israel. No entanto, não houve a restauração de um Reino Judaico Autônomo (a não ser no breve período dos Macabeus, conforme relatado no Novo Testamento). Os mesmos poderes que governavam a Babilônia, passaram a controlar a Judeia (como este território ficou conhecido por muitos séculos)

Tudo muda com a vinda de Roma: Em 70 EC Tito destrói o 2º Templo de Jerusalém, e em 135 EC o Imperador Adriano expulsa os judeus. Estes se espalham pelo mundo, em especial pelo que depois viria a ser a Europa. Os países que depois vieram a constituir a Europa Ocidental expulsaram sistematicamente os judeus de seus territórios (exemplos: Inglaterra em 1290, França em 1182; Áustria em 1421, etc.)  e a opção que sobrou era de se mudar cada vez mais para o leste.

Em geral a relação dos Azhkenazis, com os governos onde moravam, não foi tão boa, com expulsões, perseguições, conversões forçadas, Autos-de-Fé e tantas outras, que não preciso detalhar.

No final do século 18, a Rússia conquista inúmeros territórios, onde havia uma grande população judaica (corresponde ao que hoje são: Belarus, Lituânia, Ucrânia, Polonia e Moldávia).

Em 1791, Catarina, a Grande, obriga os judeus há viveram numa região ao Oeste do seu território que era conhecido como “Pale of Settlement” (Zona de Assentamento Judaico”). 

Viviam em condições precárias, entre eles os Pogroms (incentivados pelo governo de Moscow, os Cossacos atacavam vilarejos judaicos, com assassinatos, estupros e todos os horrores que conhecemos.

A População Judaica na Europa no Pré-Guerra:

Estima-se que na época da eclosão da 2ª Guerra Mundial, havia cerca de 9,5 Milhões de judeus na Europa.

 Cerca de 5,5 milhões moravam no que seria o “Pale of Settlement” (ele foi extinto em 1917 com a Revolução Russa), isto é, ¼ de toda população judaica mundial lá tinham suas vidas.

 Não eram judeus dispersos, vivendo em populações de maioria não judaica. Viviam em cidades ou vilarejos (chamados de Shtetls) consistindo em 30 a 50% da população delas, que funcionavam como uma verdadeira Civilização Judaica Territorialmente Concentrada.

 Minha família materna (de Rovno) e paterna (de Sukuron) veio destes locais.

Começam a surgir movimentos, para tentar encontrar um caminho para melhora de condições dos judeus

1897: O ANO DE SUMA IMPORTÂNCIA – Os Movimentos para resolver a “Questão Judaica”

Ocorre o 1º Congresso Sionista, na Basileia:

Movimento criado por Theodor Herzl, inspirado pelo caso Dreyfuss, na França.

Foi, e ainda é, a maior força motriz para imigração de judeus (inicialmente do Leste Europeu, onde ocorriam os Pogroms) e criar as condições para o estabelecimento do Estado de Israel.

Ocorre a Fundação do Bund:

No mesmo ano, em Vilna, na atual Lituânia, ocorre a fundação do Bund (Organização Geral dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia).

Foi um movimento judaico, socialista (inicialmente marxista), secular, fundado de forma clandestina. Uma tradução livre de Bund seria “União”.

 Tratava-se de uma espécie de uma terceira via, para a chamada “Questão Judaica” do Leste Europeu. Nem a assimilação plena na Sociedade Russa/Polonesa, nem a solução sionista de emigrar para construir uma pátria judaica na Palestina.  Era ANTI-SIONISTA

Surge como um movimento de liberação das restrições impostas pelo Regime Czarista, associada a reivindicações de uma classe operaria submetida a condições de trabalho muito ruins.

 Movimentos deste tipo estavam surgindo no mundo todo, exemplo: Em 1º de Maio de 1886 ocorre o chamado “Massacre de Haymarket, em Chicago (devido a este fato é que o dia 1º de maio é o dia do trabalho, menos nos EUA, por ser considerada uma data “comunista”). Trabalhadores entraram em greve por condições melhores. A polícia atirou nos manifestantes, várias mortes ocorreram e os líderes do movimento foram julgados e executados.

A ideologia do Bund era:

  • Socialismo e luta de classes
    • Inicialmente Marxista
    • Posteriormente Socialistas, do estilo dos Mencheviques e não ao Bolchevismo de Lenin.
  • Igualdade Civil aos judeus:
    • Todas as restrições fossem eliminadas e que fossem iguais a todos os demais. Na França, a igualdade foi concedida pela Revolução Francesa em 1791. À medida que Napoleão Bonaparte conquistava territórios, ele exportou este conceito.
  • Autonomia Nacional-Cultural aos judeus:
    • O Império Russo (como depois a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) era composto de várias nações (a Ucrania era uma destas e boa parte da razão atual guerra está relacionada a este antecedente)
    • O Bund queria que os judeus também fossem entendidos como uma nação, mesmo não tendo um território próprio
  • O Yidish (língua de origem germânica, escrita com o alfabeto hebraico) como língua nacional
    • Esta era a Língua-Franca de quem morava no “Pale of Settlement”
    • O Hebraico era usado apenas em rezas.
  • Doikayt: O princípio do “AQUI”
    • ONDE VIVEMOS É O NOSSO PAÍS
    • Não deveriam considerar a Polonia, Lituânia etc. apenas como um “exilio provisório” à espera de retornar à Palestina
    • Portanto deveriam lutar para tornar o local onde viviam democrático e tolerante.
  • Desta maneira o Bund era ANTI-SIONISTA
    • Sionismo era considerado uma espécie de Escapismo. Isto é, não enfrentar o antissemitismo do Império Russo
    • Pela visão Marxista o sionismo era visto como um movimento burguês.

Assim o Bund e o Sionismo eram movimentos com ideologias e objetivos muito diferentes, coexistiam e disputavam o mesmo universo judaico Ashkenazi. Havia um confronto ideológico, mas não físico. Possivelmente porque ambos concordavam com o diagnóstico (a situação dos judeus europeus era insustentável), mas discordavam radicalmente sobre a solução.

A 2ª Guerra Mundial e o Holocausto, com todos seus horrores, assassinando e aniquilando cerca de 60% da população judaica europeia (até os dias atuais a população judaica não voltou a ter seus números originais) teve um efeito devastador sobre o Bund:

  1. Quer seja pela simples extinção da população que militava em torno dele.
  2.  Com a destruição do conceito que seria possível haver a possibilidade dos ideais do Bund fossem factíveis.
  3.  Soma-se a isto, que os Bolcheviques não toleraram o que o Bund propunha

Obviamente vários dos adeptos à filosofia do Bund, após o Holocausto revisaram suas posições

No entanto, muito das ideias do Bund permaneceram em parte não desprezível da população judaica Ashkenazi, que vivem na Diáspora (não em Israel), particularmente nos Estados Unidos, Canada, Australia, França e Argentina.

  1. Quer seja em sobreviventes do Holocausto,
  2. Em especial por aqueles que emigraram do Leste Europeu para outras regiões (estima-se que cerca de 2 Milhões), como as Americas (lembrando que em 1924 os Estados Unidos passaram a proibir imigração vinda do Leste Europeu

Existe nos tempos atuais, em alguns grupos uma tentativa de se restabelecer algo como um “Neo-Bund”, que alguns definem como “diasporismo” recuperando vários conceitos do Bund, em especial o “Doikayt”. ONDE VIVEMOS É O NOSSO PAÍS.

Além do Bund, existiram e ainda existem, outras formas de pensamento judaico que se opõem ao Sionismo, mas naquilo que sei, nenhum com uma história tão rica quanto a do Bund.

Para terminar, no Brasil houve uma presença bem significativa do Bund no Brasil (sem o tamanho, nem a organização que havia no Leste Europeu), tendo ocorrido mais em clubes, educação, Cultura Yidish, atividade política Socialista e organizações comunitárias.

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